Vai ter Copa!
- May 22
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Updated: 50 minutes ago
Famílias da antiga ocupação Copa do Povo, que teve apoio de professores(as) da Unifesp, receberão os primeiros apartamentos do MCMV — Entidades nos próximos meses.

Mais de 500 famílias que formaram a ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) Copa do Povo no bairro de Itaquera, São Paulo, em 2014, finalmente irão receber seus apartamentos nos próximos meses. Fruto das lutas por moradia digna no ano da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, o conjunto habitacional, também chamado Copa do Povo, terá os primeiros dois blocos, com cerca de 150 apartamentos ao todo, entregues já em junho. A partir daí haverá um mutirão de pintura interna em cada apartamento a ser realizada pelas próprias famílias antes da entrega oficial das chaves. “A opção pelo mutirão de pintura se deu para baixar um pouco o custo das unidades”, esclarece a coordenadora do MTST no local, Kelly Cristina Silva.
Outras oito torres, cada uma com 12 andares, elevador e toda a infraestrutura de urbanismo e lazer erguidas pela Construtora e Incorporadora Faleiros, com gestão do MTST, serão entregues até dezembro. “Temos duas glebas na área da antiga ocupação”, explica Silva. “Aqui na gleba B só falta um bloco ainda a ser iniciado, mas até o fim do ano vamos entregar 560 unidades”. Cada apartamento, de dois quartos e varanda na sala, tem uma área total de 67 metros quadrados, maior que o mínimo exigido pelo programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), de 45 m2, e mais que o dobro dos estúdios que a iniciativa privada tem construído em São Paulo com verbas da Prefeitura em empreendimentos que teoricamente seriam para Habitação de Interesse Social (HIS).

“A obra feita pelo movimento consegue apartamentos maiores porque não é o lucro que determina as decisões de projeto, mas a garantia do direito à moradia digna e o processo de projeto participativo com as famílias”, conta o professor e arquiteto Pedro Fiori Arantes, que foi pró-reitor de Planejamento e coordenador da implantação do Campus Zona Leste da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) entre 2013–2021. “Existe uma longa história de projetos dos movimentos populares, com gestão direta ou indireta, com ou sem mutirão, que confrontam a lógica das empreiteiras e da moradia como simples mercadoria”, completa. Cada unidade deve ter um custo final de cerca de R$ 210 mil, mas os(as) moradores(as) não vão pagar todo esse preço. Como o projeto faz parte da Faixa 1 do MCMV, de até dois salários-mínimos por família, a prestação máxima será de 10% da renda mensal por cinco anos. Famílias cadastradas no Bolsa Família e beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC) não irão pagar nada. Ou seja, o subsídio público é grande; é uma política de reparação social e distribuição de renda.

A Ocupação Copa do Povo fica a poucos quilômetros do novo campus da entidade e a história das duas conquistas se entrelaça intimamente. Assim, nada mais natural que levar duas turmas, de Geografia e do novo curso de Arquitetura e Urbanismo da Unifesp, em caminhada pelo bairro explicando as modificações urbanísticas no bairro nas últimas décadas e o histórico de luta por moradia e educação de qualidade para a população. Foi o que fez o professor Pedro Fiori Arantes, acompanhado da diretora do Instituto das Cidades (IC/Unifesp) — Campus Zona Leste, professora Patrícia Laczynski, e mais dois professores do IC/Unifesp em meados de abril. “O Instituto das Cidades tem como propósito formar pesquisadores(as) e profissionais preocupados(as) com a formação de cidades mais justas e democráticas”, comenta Laczynski. “Dialogar com os movimentos sociais e analisar as políticas públicas a partir da perspectiva da população urbana é um exercício importante para a universidade comprometida com uma formação crítica.”

Duas conquistas entrelaçadas.
Em 2013 o Movimento Passe Livre (MPL), reunindo a juventude de partidos de esquerda e grupos anarquistas, tomou as ruas de São Paulo para lutar pelo direito à cidade, contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô e por transporte público gratuito. Era o início do que foi chamado de Jornadas de Junho. Depois de muita repressão policial, o MPL conseguiu a anulação do reajuste das passagens naquele ano e convocou a população para se manifestar em 17 de junho, quando outros grupos, incluindo reacionários de extrema direita como os Carecas do Subúrbio, passaram a pautar parte das manifestações com slogans como “sem partido, sem bandeira” e “contra tudo o que está aí”.

A partir de então, as manifestações iriam se dividir: as com reinvindicações e pautas de direita, mais difusas e em geral contra o governo de Dilma Rousseff, eram protegidas pela polícia, enquanto as organizadas pelos movimentos populares com pautas reais recebiam repressão pesada. As primeiras dariam origem à reedição da Marcha com Deus e a Família, realizada às vésperas do Golpe de 1964, em março de 2015, que seria o protótipo de todas as manifestações que resultariam no Golpe do Impeachment em 2016. Já as segundas continuariam lutando por direitos fundamentais, como a moradia e educação de qualidade.

É nesse momento que o sonho histórico de movimentos populares da Zona Leste por uma universidade pública na região se encontra com a luta por moradia do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Enquanto 12 integrantes dos movimentos populares da região se juntavam a 12 membros da Unifesp em uma comissão paritária no Conselho Universitário que definiria as diretrizes e o projeto político-pedagógico do futuro Instituto das Cidades (IC/Unifesp) no Campus Zona Leste, milhares de famílias ocupavam um grande terreno nas proximidades criando a Ocupação Copa do Povo.
“Era uma época de grandes reivindicações para que os investimentos governamentais atendessem aos interesses populares”, lembra Arantes. Ao invés dos gastos milionários para reforma e construção de estádios para a Copa do Mundo de Futebol de 2014, os movimentos pediam escolas, moradias e hospitais ‘padrão FIFA’.” Desse modo, nada mais natural do que juntar esforços e abrir as portas da universidade para apoio aos movimentos populares, incluindo espaço para reuniões e apoio nos projetos de urbanismo e análise do impacto ambiental para a ocupação.

Assim, o IC/Unifesp e a Ocupação Copa do Povo nasciam e cresciam juntos. Em agosto de 2014, o MTST firmou compromisso com o poder público para desocupação da área de modo que Ministério das Cidades pudesse adquirir o terreno para a primeira experiência do Programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) gerida não por construtoras interessadas unicamente no lucro, mas pelo próprio movimento popular, o MCMV — Entidades. Em dezembro do mesmo ano, a então reitora da Unifesp, Soraya Smaili, assinou com o Ministério da Educação (MEC) o documento de pactuação do novo campus, incluindo a previsão de vagas de docentes, técnicos(as), estudantes e verba de implantação, com obras, custeio e assistência estudantil.
Infelizmente, como dito acima, 2015 e 2016 seriam marcados pelo crescimento nas ruas dos movimentos reacionários apoiados pela mídia hegemônica e parte do judiciário, com destaque para a Operação Lava Jato, levando ao Golpe do Impeachment. O governo do golpista Michel Temer, com sua (SIC) Ponte para o Futuro, e posterior Teto dos Gastos secou os recursos para a educação e para as moradias populares. O ex-presidente Jair Bolsonaro faria pior, atacando diretamente as universidades e destruindo o programa MCMV, falsamente trocado pelo programa Casa Verde e Amarela, que basicamente entregou unidades já em processo de finalização e projetos para a classe média. Com isso, os projetos do Campus Zona Leste e da Copa do Povo foram praticamente paralisados.

Seria necessário que Lula, em uma ampla coalisão pró-democracia, voltasse ao governo federal para a retomada dos investimentos e a reestruturação dos projetos. O MTST teve de refazer o projeto do conjunto habitacional Copa do Povo quase que do zero e só conseguiu por causa da perseverança dos(as) militantes que mantiveram por anos o terreno sem novas invasões. Do mesmo modo, todo o cronograma de instalação dos cinco cursos previstos para o IC/Unifesp (Geografia, Arquitetura e Urbanismo, Administração Pública, Engenharia Civil e Engenharia Ambiental e Sanitária), apenas os de Geografia (bacharelado e licenciatura) conseguiram ser implementados até 2020, com muita luta dos(as) primeiros(as) professores(as) concursados(as) e apoiadores(as), como o próprio Arantes, lotado na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) — Campus Guarulhos, e a reitora Soraya Smaili. Ainda assim, as primeiras turmas sofreram bastante ao iniciar os estudos em plena pandemia da covid-19 e com infraestrutura insuficiente. O novo curso de Arquitetura e Urbanismo foi iniciado somente em 2026, mesmo ano de entrega dos primeiros apartamentos do Copa do Povo, e as obras do campus foram retomadas depois de longa espera. Que não parem, e que venham os(as) novos(as) professores(as) (20 deles/as em concurso) e a abertura dos demais cursos planejados e pactuados com o MEC.
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