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GAZA: Onde a esperança agoniza, só a fé ainda persiste

  • Aug 13, 2025
  • 4 min read
No Dia dos Pais em Gaza, marcado pela dor dos órfãos como os filhos do jornalista Anas al-Sharif
No Dia dos Pais em Gaza, marcado pela dor dos órfãos como os filhos do jornalista Anas al-Sharif

Em meio aos órfãos de Gaza no Dia dos Pais, como agora são os filhos do jornalista Anas al-Sharif, morto nesse domingo, um missionário palestino conta como tem sido os dias no território arrasado por Israel.


“Meu pai morreu dois meses atrás. Eu estou muito feliz porque Jesus me enviou a ti para ser meu pai. Você me aceita como filho?”, um palestino de apenas sete anos pergunta a Jorge*. Na Faixa de Gaza arrasada, a esperança de um acolhimento é um fio sustentado apenas pela Fé. Jorge, um missionário cristão palestino com família brasileira me mandou esse questionamento feito a ele no Dia dos Pais, 10 de agosto, por mais um órfão das dezenas ou centenas de milhares cujos pais foram massacrados pelo exército que hipocritamente o Estado Judeu chama de “Forças de Defesa”.


Jorge é uma voz suave vinda clandestinamente pelo celular assim como é clandestina a igreja onde segue pregando fé e esperança. Rezo para que seu telefone não esteja sendo rastreado como quase certamente era o do jornalista Anas al-Sharif, executado também no Dia dos Pais por Israel junto a quatro companheiros palestinos a serviço da rede Al Jazeera: o repórter Mohammed Qreiqeh e os cinegrafistas Ibrahim Zaher, Moamen Aliva e Mohammed Noufal. Assassinados pelo bombardeamento da tenda onde estavam, nos arredores do Hospital al-Shifa, eles se juntam aos 232 profissionais da mídia mortos por Israel desde outubro de 2023. O Estado Judeu tenta, com isso, calar os poucos que ainda reportam do campo (jornalistas estrangeiros estão proibidos de entrar em Gaza) o genocídio e a limpeza étnica. Restam apenas os órfãos como testemunha (https://www.instagram.com/p/DNOIXfXO3yl/) enquanto também não sucumbirem por balas, bombas ou fome.


“Essas crianças não têm como pensar no futuro. Se você ver elas nesse momento, ajoelhadas orando, pedindo a Deus para busca-las o quanto antes porque lá no céu tem uma vida muito melhor... Essa é a esperança das crianças aqui. Isso é o que elas estão pensando. Não querem mais nada”, explica Jorge. “Outras por aí estão carregadas de pensamentos de vingança. Quando você conversa com uma criança dessas, até de cinco anos, ela fala literalmente: eu vou continuar lutando, vou seguir os passos de meu pai, vou lutar para libertar minha pátria! Uma criança de cinco anos... Elas são patriotas, não querem deixar sua pátria.”


“Estamos vivendo uma vida que não parece ser desse mundo”, atesta o missionário. “Eu nasci em 1960, de modo que presenciei a Guerra dos Seis Dias (entre Israel e vários países árabes em junho de 1967 após um ataque israelense surpresa contra o Egito), mas apesar do sofrimento desde então, eu não posso comparar nenhum conflito anterior com o que nós estamos passando hoje”. “Quando a gente escuta personagens importantes dizendo que isso é um Genocídio (como o Presidente Lula vem fazendo desde outubro de 2023 https://agenciabrasil.ebc.com.br/.../lula-diz-que-guerra... ), é muito difícil para mim, mas realmente é um massacre total contra nosso povo em Gaza”.


Assim como qualquer outro habitante da Faixa de Gaza, jornalista ou não, Jorge vive em tensão constante. “Eu não tenho como explicar, mas de fato Israel está determinada em matar, matar e matar”, diz. “Isso deveria assustar as pessoas para deixarem nossa terra. Mas para onde podemos ir? Pelo mar? Pela fronteira fechada com o Egito? Além disso, Israel só permite a saída de alguns sob condições como assinar declarações de que não vão voltar. É uma renúncia a nossa cidadania que não podemos aceitar.”


“O que nós estamos vivendo hoje é uma tragédia completa. Só de fome temos mais de 480 pessoas mortas (https://operamundi.uol.com.br/.../genocidio-em-gaza.../). Grande parte delas são crianças. E a única fonte de comida fica em barreiras (dominadas por Israel e Estados Unidos) onde somos alvo de tiros do exército alegando que queremos invadir suas bases. Isso não é verdade. Não temos nada, não temos armas. A maioria está coberta de trapos implorando por um pedaço de pão. Estamos sendo mortos pela fome e pela tragédia. É muito difícil, meu amigo”.


Jorge segue com seu relato angustiante: “eu sou cristão. Eu aprendi a amar e amar, mas é complicado falar desse amor, muito complicado porque pra todo lado é só tragédia. A qualquer momento que conseguir, por exemplo, ir para outro lugar pegar comida, pode perder sua vida. Não se tem segurança alguma. Há centenas de drones fazendo aquele barulho terrível sobre nossas cabeças. Não param nunca de rodar ao seu redor. Então só a graça e a misericórdia de Deus podem nos ajudar”.


“Eu estou lutando para manter nossa igreja clandestina com os poucos alimentos que ainda temos. Estamos racionando para uma única refeição limitada por dia, mas pelo menos aqui ninguém ainda morreu de fome. Eu estou em uma área complicada, conseguindo clandestinamente os alimentos. É um risco imenso, mas esse risco é por causa desse amor que eu tenho inspirado pelo Senhor Jesus. Isso também significa o quanto é importante hoje ter Jesus na minha vida. Antes eu sofria porque queria morrer, mas hoje eu sofro pelos demais. Eu quero que os demais vivam. É essa a obra de Cristo na vida do ser humano”.


“Meu irmão, eu não estou conseguindo dormir de tantos gemidos de sofrimento, de choro”, confessa Jorge. “É essa a nossa vida agora. A minha pergunta é: e se não fosse na Faixa de Gaza, mas em Israel o bombardeamento desse nível, dessa maneira? Será que o mundo inteiro não iria se levantar para defender, para proteger, como nós vimos na Segunda Guerra Mundial? Então é isso. Somos cristãos, amamos Jesus, amamos a vida. E ao mesmo tempo queríamos que o mundo olhasse para nós como um povo, nada mais.”


*O entrevistado teve o nome alterado, assim como a retirada do texto de qualquer referência à sua localização e vínculos com o Brasil, por motivos de segurança.


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